terça-feira, 4 de abril de 2017

A criança e adolescente frequentador de Projetos em instituição não-formal de educação

INTRODUÇÃO
O trabalho com projetos não salvará qualquer que seja acriança da miséria onde se encontra. As situações de risco vividas por crianças e adolescentes das periferias de Belém são práxis facilmente observáveis. A grande quantidade de crianças perambulando pelas ruas em horário escolar é escandalosa; longe de atividades próprias a sua idade. A cidade Velha é um de muitos bairros da periferia de Belém, logo, na Cidade Velha não é diferente, pois é gritante o número de crianças oriundas deste bairro, pedintes pelo espaço do Ver-o-Peso, Praça D. Pedro I, Praça Felipe Patroni e Comercio. Este carrossel de negligências tem como ponto de referência o prédio símbolo do poder público municipal, o Palácio Antonio Lemos onde funciona o arquivo e algumas salas administrativas da prefeitura de Belém e onde foi instalado o Museu de Arte de Belém (MABE).
A administração do MABE preocupada com a quantidade de crianças que se via espalhadas pelo espaço optou por fazer um levantamento que indicasse o local de origem de tantas crianças. O trabalho indicou que estas vinham em sua maioria de uma única rua do bairro da Cidade Velha; a passagem do Carmo ou como é conhecido o “Beco do Carmo”. Uma ladeira ao lado da Igreja do Carmo onde as casas são de madeira e construídas a margem do rio. As crianças eram originárias de famílias monoparentais (avó e mãe) e algumas de famílias extensas (duas a três famílias monoparentais em uma única residência) e outro dado importante é que um grande número de crianças possuíam algum vínculo de parentesco e por esse motivo passeavam pelas áreas supracitadas em grupos tão numerosos. A intervenção se fez necessária, pois algumas crianças já haviam iniciado pequenos atos infracionais o chamado “descuido”.
A administração do MABE decidiu criar um projeto chamado “PontArte” e passou a atender as crianças em parceria com a Comissão de Moradores do Bairro da Cidade Velha. Iniciou busca ativa pelas famílias das crianças para que estas começassem a frequentar atividades sócio educativas planejadas e executadas no Setor de Ação Educativa do MABE. No ano de 2010 o projeto atendia cerca de 36 crianças sendo que apenas 19 eram moradoras da Passagem do Carmo, pois crianças moradores das demais ruas do bairro, também passaram a frequentar o espaço.
O projeto com iniciativa de espaços educativos não-formais no atendimento de grupos de risco fez-se necessário para averiguar sobre algumas das propostas do Museu de Arte de Belém no que garantia o espaço de acolhimento das “Crianças do Carmo”. As ações tinham como proposta apresentar o MABE as crianças, contar um pouco da história da Cidade Velha e mostrar o Museu como espaço significativo e que deve ser preservado. A fonte de dados sobre as ações ofertadas pelo Museu e executadas pelo setor de Ação Educativa são registros dos cadernos de atividades e acervo fotográfico, pois estive por dois anos (2011 e 2012) como oficineiro do Projeto que funcionava dias de terça e quinta no horário da tarde.
MABE: MUSEU DE ARTE DE BELÉM
A consciência patrimonial da humanidade está se deteriorando lenta, mas fortemente. Os interesses intelectuais mundiais sofreram mudanças serias e a relação da humanidade com sua substância histórica é motivo de preocupação e mobilização por parte dos incumbidos de preservar esses patrimônios, os museus.
As sociedades vivem contextos tecnológicos imediatistas que tem pouco diálogo com a preservação física-material do passado. Vive-se no planeta que nega a Amazônia como patrimônio da humanidade, como uma das maravilhas do mundo.
O Brasil existe mundialmente como quintal de países economicamente fortes. Com histórico de dividas externas e politicas públicas duvidosas, o povo sobrevive banhado de mídia futebolística que toma conta do horário nobre (LOBO, 1990). Cego, o brasileiro nega a real situação do país; duvida de sua capacidade e tem pouca fé na educação formal oferecida na escola. A falta de informação e conhecimento dos tesouros existentes em um país de contrastes étnicos; de cultura diversificada; com prédios seculares que dizem sobre seu povo mais do que o povo imagina, está desaparecendo.
Uma cidade com um projeto urbanístico de mais de um século. A Belém de uma época onde há influência europeia em vários campos como literatura, moda, mobiliário, alimentação, música, artes plásticas, cênicas e arquitetura, mas que atualmente vive um estado de deterioração histórica (FIGUEIREDO, 2011). As escolas não estão preparadas para trabalhar a importância dos conteúdos históricos e artísticos que habitam nos prédios e casarões antigos. A cidade que no período da borracha caminhava lado-a-lado com o progresso e disputava culturalmente com Rio de Janeiro e São Paulo, atualmente apenas repete tendências de outras regiões (BASSALO, 2008).
O Museu de Arte de Belém (MABE) é uma instituição comprometida com a preservação histórica de uma “cidade das mangueiras” abalada pelo abandono arquitetônico. A cidade em ruinas que sobrevive nos salões de exposições do museu, cidade que sobrevive no MABE e o MABE que sobrevive em si mesmo.
Pensar uma proposta de atuação para expressar a realidade histórica existente nos salões, em especial o Salão Verde é um desafio tentador, pois, a ação educativa do MABE tem o dever de dialogar com as escolas e visitantes. Na prática o trabalho de mediação voltado aos turistas e estudantes universitários é de determinada forma mais simples que a recepção das crianças e adolescentes frequentadoras das escolas de ensino fundamental e médio. É pensando nos discursos necessários a apresentação dos artefatos artísticos que compõem os Salões e na recepção das escolas principalmente de ensino fundamental que faz-se de grande importância para a instituição uma indissociação dos objetivos educacionais do ensino de História e de Arte do ensino fundamental e do médio, para não apenas a manutenção dos discursos dialógicos, mediador-salão verde como para o diálogo com a necessidade das escolas de nível fundamentais e médio, que perdem-se diante das informações confabuladas nos salões. A condição de atender de forma qualitativa as escolas, também, diversifica o atendimento dos demais grupos de visitantes e prepara os mediadores para receber as “Crianças do Carmo” nos dias de funcionamento do Projeto.
Mais que monumento histórico o Palácio Antônio Lemos é projeto social que venceu as barreiras do tempo para existir de fato na cidade de Belém do Pará e para que Belém do Pará também exista em suas paredes e sacadas. Com uma frase vestida de ambiguidade, pode-se dizer que pisar no Palácio Antônio Lemos é pisar na história de riquezas e frustrações de Belém de outrora e é confabulando com as riquezas artísticas da capital paraense que as escolas tanto visitam o prédio dos intendentes.
A breve revisão histórica remonta desde o projeto de construção do Paço Municipal no fim do século XIX e inicio do século XX até o ano de 1991 quando foi instituído o Museu de Arte de Belém (MABE) como um departamento da Fundação Cultural do Município de Belém (FUMBEL) que tem como administrador maior a Prefeitura Municipal de Belém.
O inicio da construção do Paço Municipal no fim século XIX é o gatilho de uma Belém de tendências europeias; o comportamento e todo o referencial vivido em Belém é francês; é o momento da ArtNoveau e, também, momento de grande empolgação por parte da burguesia. Mas, da fundação da cidade até o século XVIII Belém estava dividida em Cidade (atualmente Cidade Velha) e a Campina. A cidade possuía na época a concentração do poder religioso e militar, representados na figura da igreja jesuíta e no Forte do Presépio. A “cidade” e a “campina” eram separadas por uma área alagada que se juntava ao Igarapé do Piri. Sendo essa uma ocupação institucional e depois de constatado em mapas datados de 1791 foi verificado que ali só existiam o Palácio do governador seus jardins e alguns outros galpões.
Belém foi uma cidade de inúmeras propostas urbanísticas, dentre elas encontra-se a formulada pelo major engenheiro João Geraldo Gronfelt onde na área do Piri seria um canal navegável e a cidade seria tão bela quanto Veneza. No entanto no século XIX o canal foi drenado e aterrado, trabalho esse iniciado pelo Conde dos Arcos, por volta de 1803. O resultado urbano dessa intervenção é a atual Praça D. Pedro II e as diversas ruas que vincularam a cidade à campina.
O favorecimento econômico relacionado à exploração da borracha, momento econômico conhecido como Belle époque equatorial, a partir de 1870, faz com que a Amazônia comece a escrever sua própria história, destacando Belém como maior porto distribuidor para os mercados internacionais o que favorece o poder municipal. A nova situação econômica do município refletia nas atividades políticas e administrativas do município que ansiava por um prédio adequado a atual situação, por esse motivo a partir da metade do século XIX começa a ser construído um palácio que reuniria o poder da província; o local escolhido foi o Largo do Palácio, onde no século XVIII foi construído o Palácio dos Governadores.
No dia 14 de Abril de 1860 o prédio definitivo para o Paço Municipal começa a ser construído e o autor desse grandioso projeto é José Coelho da Gama e Abreu, fato registrado na moeda comemorativa, “delineou e executou” são as palavras gravadas na moeda. Muito longe de ser concluído o prédio foi inaugurado pelo presidente General Barão de Maracaju na data de adesão do Pará a Independência do Brasil, 15 de Agosto de 1883.
Com o passar dos anos o prédio sofreu inúmeras pequenas reformas que o fizeram assumir uma proposta predial eclética que abriga atualmente o museu oriundo da antiga pinacoteca municipal o Museu de Belém (MUBEL), este que é em si artefato histórico, pois está localizado no prédio da intendência municipal, hoje prefeitura de Belém. Tornar acessível ao público o conteúdo histórico que habita no prédio da Prefeitura ou como é conhecido Palácio Antônio Lemos, onde se encontra o MABE, faz-se importante para o bom resultado do discurso de mediação. A descrição dos salões como Antonieta Santos Feio e Theodoro Braga e seus conteúdos faz-se necessário não apenas para enriquecer o conteúdo do projeto, mas para marcar mais um grande momento do MABE no contexto artístico intelectual da cidade de Belém. A contextualização dos salões no ano de 2012 serviu para registrar as exposições deste ano. O Museu tornou-se com a presença frequente de crianças que não estavam atreladas a trabalhos ou passeios escolares um local acolhedor. As crianças passaram a visitar o Museu em dias independentes se ocorria ou não ações do projeto. Então, passou a ser pensada a relação das “Crianças do Carmo” com o Museu.
O MUSEU E A CRIANÇA
A abordagem integrou os diversos discursos oriundos das crianças e foi considerada toda sua experiência para resolver e criar situações que envolviam a presença delas dentro do espaço do Museu. Este que é lugar de castrar determinados hábitos. Uma criança que está no espaço da rua, quando se depara com o Museu fica sem saber o que fazer, pois este se apresenta como lugar onde nada pode ser tocado, movido ou arredado. Logo, segundo François Laplantine (2005) foi necessário considerar as múltiplas possibilidades das “Crianças do Carmo” no espaço do Museu.
O Projeto considerou todas as condições apresentadas pela criança e sua permanência no espaço do Museu, desde sua forma de expressão, pois está é a disseminadora da história a qual estão fazendo parte; o confronto não com o coletivo de crianças, mas com os indivíduos que ali se apresentavam. O Museu havia aberto suas portas para outra realidade, outra cultura. O estranhamento não aconteceu apenas nas crianças, mas em todos que no museu trabalhavam. O fato é que ocorreu uma troca, pois o museu aprendeu com as crianças; François Laplantine (2005) chama isso de experiência da alteridade. Era tão comum ver as crianças perambulando pela Praça D. Pedro I, pela Praça Felipe Patroni; era tão habitual olhar pela janela e estas estarem lá. Para as crianças era tão comum olhar as enormes janelas do Palacete Azul e os vultos de pessoas andando em todas as direções.
A diferença cultural apresentada pelo museu às crianças foi um choque e o próprio museu, também ficou chocado com o que as crianças falaram do prédio. A frase mais intrigante foi a de uma menina de 12 anos “eu nunca tinha visto esse prédio aqui” e outra completa “eu já, mas tinha medo de chegar perto”. É surpreendente que uma sociedade que apresenta uma riqueza cultural tão diversa não entenda que o espaço por si só não representa cultura, este só carrega este estatuto quando representado no discurso de suas crianças. E isto só ocorrerá segundo François Laplantine (2005, p. 22) “no reconhecimento, conhecimento, juntamente com a compreensão de uma humanidade plural”.
O Projeto iniciou preocupado com as crianças em situação de vulnerabilidade, as acolheu e passou a mostrar a estas um novo lugar e este lugar passou a ensina-las a cuidar e guardar preservando o patrimônio cultural que era não apenas o MABE, mas toda a Cidade Velha. O Projeto mostra a criança o lugar onde ela mora.
A CRIANÇA MEDIADORA COMO PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL
As atividades do Projeto PontArte modificaram a rotina das “Crianças do Carmo”, fez com que muitas passassem a frequentar mais a escola. Quase todas estavam estudantes na escola General Gurjão.
As ações desencadearam uma intensa procura pelo museu, mas que logo sentiam-se desestimuladas pois queriam que todos os dias fossem dias de jogos e pintura. A principal característica do projeto era a manutenção intelectual do espaço do museu, mostrar às crianças a importância do museu e de todo o seu conteúdo. Apresentar as belezas que ali se encontravam. As atividades de pintura sempre estavam relacionadas a alguma obra de um dos salões.
Eram propostas as crianças conversas sobre os salões e estas com o tempo passaram a narrar como “divulgadores” ou “pequenos mediadores” os salões, pois era intenção dos fundamentadores do projeto que as crianças argumentassem entre mundos e realidades diversas. A criança é aquela em constante contato e assim servem de canal de comunicação entre o museu e outras crianças, os novos visitantes.
Os estudantes de estágio que estavam responsáveis pela mediação dos salões construíram um jogo de tabuleiro que continha a rota dos museus da Cidade Velha. O espanto das crianças quando descobriram que a Igreja “grande” (Igreja de Santo Alexandre) era o Museu de Arte Sacra, que o Forte do Castelo é um museu e que a Casa das Onze Janelas não é um restaurante “chick”. As atividades vestiram esses espaços com novos significados, assim o Projeto PontArt passou a mediar reflexões sobre a formação do patrimônio cultural. As crianças passaram a participar e o olhar das crianças passou a ler aquele enorme documento histórico que é o lugar onde moram. As crianças deixaram de ser as “crianças do Carmo” e passaram a ser “Pequenos mediadores”, pois passaram a rever sua imposições, atitudes e conceitos de identidade. Portanto, é possível que pequenas ações planejadas e executadas por instituições não-formais complementem a realidade da criança possibilitando, na medida do possível, uma infância saudável.
As subverteram a rotina do museu com sua presença, pois este espaço até então se propunha apenas a visualidade de objetos exibidos através das exposições e estes assumem estatuto de arte, documento artístico ou documento histórico no momento que trás o passado como realidade presente, atualidade. A presença das crianças estabeleceu laços fragmentados na memória, vestígios de realidade; o passado como jogo, brinquedo e brincadeira.
Ensinar as crianças que o museu é um espaço de preservação da memória só foi possível no período da “Primavera de Museus”, pois até as crianças perceberem seus jogos, brinquedos e brincadeiras expostos em um Salão estas não compreendiam a importância e a possibilidade cultural de si. O pequeno Salão expôs as produções artísticas das crianças e estas traziam os familiares e amigos, contando estórias do que aconteceu no dia que o artefato foi produzido. Assim como o museu possui um espaço conhecido como reserva técnica, onde estão guardados seus preciosos artefatos, o “coração” das crianças do Projeto PontArt guarda momentos de infância que fogem ao contexto de negligências a que estão submetidas.
CONSIDERAÇÕES PARA EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL
O Museu de Arte de Belém (MABE) está de portas abertas as visitações e sempre bem disposto a mediar sua essência histórica com as populações que o freqüentarem. Antônio Lemos deixou sua marca na cidade de Belém quando idealizou uma Belém francesa. O prédio do “Velho intendente” é atualmente tesouro histórico, artístico, cultural e, graças ao projeto de intervenção junto as crianças moradoras da Passagem do Carmo, social. Um espaço de educação não-formal ativo perante a proteção integral de crianças e adolescentes do bairro da Cidade Velha.
O contato das crianças com o MABE possibilitou as crianças da passagem do Carmo conhecer outra Cidade Velha. A Cidade Velha de sobrados e palacetes, com motivos de ser. Logo, as paredes do tempo, expostas no salão de arte abriu suas portas para novos leitores e contadores de suas histórias.
Como foi dito na introdução deste artigo o projeto não vai salvar as crianças do seu contexto de negligências, no entanto abriu janelas de infância que servem para serem recordadas e contadas sem medo, raiva ou vergonha. O período de vivência das crianças no espaço do museu é propicio a questões como: qual a possibilidade de políticas públicas que fortaleçam ações como a do Museu de Arte de Belém (MABE)? Como o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes poderia fortalecer essa prática em instituições não-formais de educação na cidade de Belém?
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BASSALO, Célia Coelho. Art Nouveau em Belém. Brasília (DF): Iphan/ Programa Monumenta, 2008
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: História e Geografia. Brasília: MEC/SEF, 1997
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Arte. Brasília: MEC/ SEF, 1997
FIGUEIREDO, Aldrin Moura de (Curador). Janelas do Passado espelho do presente: Belém do Pará, Arte, Imagem e História. Belém (PA): FUMBEL, 2011
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo (SP): Brasiliense, 2005. (p. 13 a p. 33)

LOBO, Luiz. Televisão: nem babá eletrônica nem bicho-papão (a criança diante da tevê). Rio de janeiro: Lidador, 1990