terça-feira, 28 de junho de 2016

A necessidade antropológica da Arte/educação

Sala de Artes da escola Leonor Nogueira, onde acontecem as atividades do Projeto Mais Educação.
Com a emergência de categorias, a relação entre os indivíduos e seus papeis sociais torna-se ainda mais problemático. Se no universo da escola, os indivíduos compõem unidades cada qual com seus papeis, com o desaparecimento desse universo, os papeis descolam-se de seus portadores e deixa de ser indicador de interação social. No entanto, com o fim dos indicadores sociais surge o indivíduo autentico, o indivíduo livre e autônomo se relacionado às realidades sociais existentes na escola.
A existência do original é a condição necessária para a autenticidade, e a livre expressão é a busca artística do original.Como ser autentico no paralelo de indivíduos tentando desempenhar papeis que os classifiquem socialmente? No entanto, o indivíduo consegue fazer uso de signos que possam transmitir conhecimento, enquanto revela seu papel social oculto. Pois, Barbosa (2010, p. 69), nos apresenta que "as ideias culturais são comunicadas por meio de sistema de códigos, o significante, a imagem discursiva e as imagens indiciais e simbólicas".
O papel simbólico do indivíduo é construído no decorrer de sua vida, compondo um leque de possibilidades que tem de ser aproveitados pela arte/educação no contexto escolar. O professor de arte em constante estado de estranhamento e alteridade para participar do discurso da criança, pois, Barbosa (2010, p. 74), nos diz que "as crianças podem discutir as possíveis relações entre obra de arte e as ideias e ideias sociais".
No entanto, o professor de arte vem embebido de sua própria cultura, cego para o mundo a sua volta, cego para exteriorização cultural da criança dentro da escola. Um professor que fale das Belas Artes renascentistas e nega o trabalho letrado feito por um pai de aluno na padaria da esquina, trabalho esse que o filho sempre viu como arte e que faz esse mesmo filho enxergar o pai como artista, mas que ainda é desmistificado pelo ensino da arte na escola, que fala de livre expressão e nega a cultura trazida pela criança para escola.
Entenda que não é possível encontrar a livre expressão num meio intelectual, mas é possível questionar o conteúdo de imagens e reproduzir de modo pessoal sua forma de interpretação. Barbosa (2008, p. 12), nos diz que:
O ensino de arte no Brasil, na escola pública, se caracteriza pelo apego ao espontaneísmo, ou pela crença na existência de inteireza expressiva na criança e na ideia de que é preciso preserva-la, evitando o contato com obras de arte de artistas, especialmente sua reprodução, acreditando que essa apreciação incentivaria o desejo de cópia.
Portanto, é fato que a livre expressão que ainda marca em muitas comunidades escolares acaba sendo negação ao contexto social trazido e expresso pela criança na comunidade escolar. A arte/educação na escola precisa de docentes desconstrucionistas que apresentem e questionem o conteúdo de uma imagem, desconstruindo significados e interpretações. Docentes que afastem as crianças do conteúdo estático e pouco dinâmico da sala de aula, mas com tinta, com lápis 6B e papel, para que a criança olhe para o artista e para os passos que iniciaram e encerraram sua obra.
A arte não fala, a arte supõe ideias. A arte não profere discursos, a arte causa sensações. A arte precisa ser vista, trabalhada e a todo momento interpretada, pois na escola, segundo Barbosa (2010, p. 98), "a aspiração dos arte/educadores é influir positivamente no aprimoramento cultural dos estudantes por meio da arte, que inclui a potencialização da recepção crítica e a produção".
Então, a alteridade do arte/educador tem de potencializar a visão da criança, fazendo-a relacionar sua prática, não apenas na arte, mas na ampla possibilidade do currículo escolar com as construções culturais vividas no tempo e no espaço social.
A arte é aguçadora dos sentidos, transmiti significados que não podem ser conduzidos por nenhuma outra ciência. Pois segundo Esterci, Fry, Goldenberg (2001, p. 19), "da mesma forma que uma pessoa pode ter sua identidade definida pela posse de determinados bens, a nação se define a partir da posse de seus bens culturais".
Então o professor arte/educador precisa compreender que ele é o artista em contato com a criança na escola e sua produção dentro da comunidade escolar pode ser considerada a influência de um fazer/criar livre e expressivo que dará estatuto não apenas a arte, mas de cultura a toda e qualquer manifestação do futuro adulto que no momento (ainda criança) está sob sua responsabilidade dentro da escola. Pois, segundo Barbosa (2010, p.99), "a arte na educação, como expressão pessoal e como cultural é, um importante instrumento para a identificação cultural e o desenvolvimento individual".
A escola deveria reavaliar sua forma de influir nos projetos culturais trazidos pelas crianças, saindo desse eterno estado de estranhamento, onde ano após ano é mergulhada, pois Barbosa (2010, p. 100) afirma que: desconstruir para reconstruir, selecionar, reelaborar, partir do conhecido e modifica-lo de acordo com o contexto e a necessidade são processos criadores desenvolvidos pelo fazer e ver arte, e decodificadores fundamentais para a sobrevivência no mundo cotidiano.
No entanto, até os anos 90, as elites culturais no Brasil sentiam desconforto com relação a educação, desconforto esse que parecia ampliar-se quando a entidade dedicava-se a arte. Barbosa (2010, p. 102) afirma que "na cultura brasileira, educação é sinônimo de mediocridade".
Mas Barbosa (2010, p. 104), também, nos diz:
No Brasil, antes de pensarmos se as tecnologias contemporâneas ampliam a intenção de educação em instituições culturais, temos de convence-las a trabalhar com base em conceitos atualizados e democráticos de educação e a se organizarem para promover educação continuada e questionadora, não apenas usar um suposto setor educacional para levar escolas a exposições a fim de inflar as estatísticas.
Entenda que a escola deve possibilitar ao ensino da arte um contexto dinâmico de funcionamento, pois o professor de arte não influi sozinho no fazer/criar dentro da escola, a mesma deve estabelecer ações educativas diretas com a perspectiva de (re)conceitualizar os conteúdos, instrumentais e educativos. Pois, segundo Barbosa e Cunha (2010, p. 129), "as contribuições da teoria pós-moderna para Arte e seu ensino começam pela compreensão da arte como conhecimento implicado no mundo rompendo com o isolamento característico da modernidade".
As instituições de ensino desvalorizam a formação inicial dos professores, também, exigem dos mesmos uma (re)invenção de suas práticas, tidas como antiquadas e com poucos critérios de avaliação.
A arte/educação na escola, além de estranhamentos e alteridades tem de apresentar objetivos que possam influir e ser avaliados, também nos demais conteúdos curriculares. O professor arte/educador tem de está apto, segundo Barbosa e Cunha (2010, p. 131) a utilizar:
A didática geral orientada pela teoria sociocognitiva pós-piagetiana que vislumbra uma ação educativa crítica e centrada nos múltiplos saberes, nos múltiplos lugares e tempos em que o conhecimento tem origem e se desenvolve, e os utiliza para analisar a formação inicial contemporânea do professor.
Logo, o professor arte/educador deve contribuir de modo objetivo no progresso das demais áreas do conhecimento existentes na escola.
Segundo Barbosa e Cunha (2010, p. 133):
O ensino da arte na escola, orientado pela abordagem triangular pretende formar o conhecedor, o decodificador da obra de arte e das imagens do cotidiano ou da cultura visual. Ou seja, este ensino promoverá (re)cognição, (re)invenção dos sujeitos envolvidos e estes se ressocializarão e se humanizarão.
Logo, é notória a  relevância de um professor arte/educador portador de uma leitura antropológica da atividade cultural trazida pela criança de seu contexto, para que está tenha potencializada sua capacidade expressiva e valorizada enquanto conteúdo complementar a escola sua consciência de sociedade.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BARBOSA, Ana Mae (Org.). Arte/Educação contemporânea: consonâncias internacionais. São Paulo: Cortez, 2010

BARBOSA, Ana Mae. John Dewey e o ensino de Arte no Brasil. São Paulo: Cortez, 2008

BARBOSA, Ana Mae; CUNHA, Fernanda Pereira da (Orgs). Abordagem triangular no ensino das artes e culturas visuais. São Paulo: UNESP, 2009

ESTERCI, Neide; FRY, Peter; GOLDENBERG, Mirian (Orgs). Fazendo Antropologia no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A, 2001

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