domingo, 17 de julho de 2016

Ferdinand de Saussure: Curso de linguística geral


A ciência que se constitui em torno dos fatos da língua passou por três fases sucessivas antes de reconhecer qual é seu único objetivo. O primeiro momento é a gramática, disciplina normativa que visa distinguir as formas corretas das incorretas, a seguir temos a filologia, termo que vinculou-se ao movimento criado por Friedrich August Wolf em 1777 e que prossegue até os dias de hoje. A língua está longe de ser o único objeto da filologia, pois esta quer fixar, interpretar e comentar os textos e tem por método próprio a crítica. A única e grande falha da crítica filológica é seu apego a a língua escrita e esquecer a língua falada e a terceira fase foi a gramática comparada que tem por objetivo responder a língua por meio de outra língua, explicar as formas de uma pela forma da outra. Franz Bopp publica o Sistema de conjugação do Sânscrito em 1816. O seu livro é um estudo sobre as relações do Sânscrito com o germânico, o grego e o latim. Trabalho que já havia sido iniciado pelo orientalista W. Jones. Bopp compreendeu que a relação de línguas afins poderia tornar-se matéria de uma ciência autônoma.
O erro da gramática comparada foi ignorar a natureza de seu objeto de estudo, assim não se perguntava onde levariam as comparações e o porquê delas, mas em 1870 quando estas perguntas foram formuladas percebeu-se que a comparação seria somente o meio, ou melhor, o método para reconstituir os fatos, então nasce verdadeiramente a Linguística.
A matéria da linguística é constituída por todas as manifestações da linguagem humana, desde povos selvagens a nações civilizadas. Considera não apenas a linguagem correta e a bela linguagem, mas todas as línguas e expressões. É tarefa da linguística fazer a descrição das famílias das línguas e reconstituir a língua mãe de cada família.
A linguística têm relações estreitas com outras ciências que tanto lhe fornecem dados como lhe tomam emprestado.
O fenômeno linguístico apresenta duas faces indissociáveis, pois uma não vale sem a outra. O som é instrumento da linguagem. O lado individual é a fala, o lado social é a língua e o lado individual e social é a linguagem que por sua vez é multiforme e heteróclita, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica.
Para achar a esfera que corresponde a língua é necessário reconstituir o circuito da fala, por exemplo: em indivíduos A e B, o ponto de partida se situa no cérebro do indivíduo A (conceitos associados as representações dos signos linguísticos ou imagens acústicas que servem para exprimi-los) onde acontece o fenômeno psíquico seguido por um processo fisiológico onde o cérebro transmiti informações aos órgãos de fonação impulsos relacionados a imagem se propagando de A até B, processo puramente físico, o processo se prolonga em B numa ordem inversa.
A semiologia é a ciência que estuda a vida dos signos no interior da vida social, ensina no que consiste os signos e que leis os regem. A linguística é parte dessa ciência geral, assim como sinais militares, alfabeto de surdo e mudo, ritos simbólicos. A linguística é só a mais importante entre todas as citadas e as leis que a semiologia descobrir serão aplicadas a linguística.
O linguista tem o dever de conhecer um quantitativo significativo de línguas para extrair delas o que há de universal, mas geralmente o conhecimento é limitado ao escrito. É importante para o linguista dispor de amostras fonográficas como é feito em Viena e em Paris.
A língua e a escrita são sistemas distintos, a única razão da escrita é representar a língua. A palavra escrita mistura-se com a palavra falada que acaba por ocupar o papel principal, por esse motivo da-se maior importância ao signo vocal do que o próprio signo. O motivo desse engano é que a imagem gráfica das palavras emprisionam como objeto permanente e sólido. São impressões nítidas e duradouras diferente das impressões acústicas. Isso explica o motivo pelo qual esquecemos que aprendemos a falar antes de escrever.
Existem dois sistemas de escrita: o ideográfico (palavra representada pelo signo único e estranho ao som, um exemplo é escrita chinesa) e o sistema fonético (reproduz a série de sons existentes na palavra).
A palavra escrita tende a substituir a palavra falada no dois sistemas de escrita, mas tal tendência é comum ao sistema ideográfico. As causas de desacordo da grafia são numerosas, pois a língua evolui constantemente ao passo que a escrita permanece imóvel.
A língua é considerada uma nomenclatura, uma lista de termos que corresponde a tantas outras coisas, ou o vinculo que une o nome a outra coisa é chamado signo. O signo é formado por imagem acústica e conceito, no entanto a imagem acústica não é o som físico, mas é impressão psíquica que passa. O conceito e imagem acústica estão sempre juntos, por exemplo quando procuramos o conceito de "lobo" temos que lembrar tanto seu conceito como sua imagem acústica.
Apesar de chamar de signo a junção de conceito e imagem acústica, o termo signo acaba por representar apenas a imagem acústica. Para desaparecer a ambiguidade tem-se de substituir os termos conceito e imagem acústica por significado (conceito) e significante (imagem acústica).
Os princípios do signo linguístico são: arbitrariedade do signo, a ideia não tem relação com a sequência de sons na palavra o que faz não haver importância na sequência sonora; o caráter linear do significante, o significante por ser de natureza auditiva desenvolve-se no tempo apenas e possui a natureza do tempo.


Referência Bibliográfica

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2012

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