terça-feira, 4 de abril de 2017

A criança e adolescente frequentador de Projetos em instituição não-formal de educação


RESUMO
O artigo tem por finalidade averiguar sobre as possibilidades de implementação de políticas públicas de lazer que possam potencializar instituições não-formais de educação no acolhimento das comunidades em condição de vulnerabilidade. Foi feito um breve levantamento dos dispositivos que garantem a proteção integral da criança em sua condição peculiar de desenvolvimento. Dispositivos que aproximam o Museu de Arte de Belém dos enfrentamentos a que se dispõe. Faz demonstrações claras sobre a importância, não apenas histórica, mas da história da cidade de Belém para a mudança de paradigmas das crianças. Despertou nas crianças a consciência do lugar. A pesquisa contou com analise de materiais fotográficos e leituras dos diários de atividades, onde constam anotações sobre as falas das crianças. O Projeto PontArt é protagonista de possibilidades de Museu que argumente com o social, espaço onde políticas públicas de lazer podem ser executadas, garantindo a preservação do patrimônio por meio da saúde intelectual das crianças.

Palavras chave: Museu de arte de Belém (MABE); Patrimônio cultural; Sistema de garantia de direitos (SGDCA).

INTRODUÇÃO
O trabalho com projetos não salvará qualquer que seja a criança da miséria moral onde se encontra. As situações de risco vividas por crianças e adolescentes das periferias de Belém são práxis facilmente observáveis, principalmente no discurso da sociedade. A grande quantidade de crianças perambulando pelas ruas em horário escolar é escandalosa; longe de atividades próprias a infância.
A cidade Velha é um de muitos bairros da periferia de Belém, logo, não é diferente, pois é gritante o número de crianças oriundas deste bairro, pedintes pelo espaço do Ver-o-Peso, Praça D. Pedro II, Praça Felipe Patroni e Comercio. Este carrossel de negligências tem como ponto de referência o prédio símbolo do poder público municipal, o Palácio Antônio Lemos, onde está o arquivo e salas administrativas da prefeitura e onde foi instalado o Museu de Arte de Belém (MABE).
A administração do MABE preocupada com a quantidade de crianças que se via espalhadas pelo espaço optou por fazer um levantamento que indicasse o local de origem de tantas crianças. O trabalho indicou que estas vinham em sua maioria de uma única rua do bairro da Cidade Velha; a passagem do Carmo ou como é conhecido o “Beco do Carmo”. Uma ladeira ao lado da Igreja do Carmo onde as casas são de madeira e construídas a margem do rio. As crianças eram originárias de famílias monoparentais (avó e mãe) e algumas de famílias extensas (duas a três famílias monoparentais em uma única residência) e outro dado importante é que grande número de crianças possuíam algum vínculo de parentesco, por esse motivo passeavam pelas áreas supracitadas em grupos tão numerosos. A intervenção se fez necessária, pois algumas crianças já haviam iniciado pequenos atos infracionais. O chamado “descuido”.
A administração do MABE decidiu criar um projeto chamado “PontArte” e passou a atender as crianças em parceria com a Comissão de Moradores do Bairro da Cidade Velha. Iniciou busca ativa pelas famílias das crianças para que estas começassem a frequentar atividades arte educativas planejadas e executadas no Setor de Ação Educativa do MABE. No ano de 2010 o projeto atendia cerca de 36 crianças sendo que apenas 19 eram moradoras da Passagem do Carmo, pois crianças moradores das demais ruas do bairro, também passaram a frequentar o espaço.
O projeto com iniciativa de espaços educativos não-formais no atendimento de grupos de risco fez-se necessário para averiguar sobre algumas das propostas do Museu de Arte de Belém no que garantiria o espaço de acolhimento das “Crianças do Carmo”. As ações tinham como proposta apresentar o MABE as crianças, contar um pouco da história da Cidade Velha e mostrar o Museu como espaço significativo e que deve ser preservado. A fonte de dados sobre as ações ofertadas pelo Museu e executadas pelo setor de Ação Educativa são registros dos cadernos de atividades e acervo fotográfico, pois estive por dois anos (2011 e 2012) como oficineiro do Projeto, este funcionou dias de terça e quinta no horário da tarde.
Para tanto foi necessário uma síntese do que é o Sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente (SGDCA), uma síntese histórica do Museu de arte de Belém (MABE) e uma breve revisão comentada dos cadernos de atividades onde foram anotados os planos de ação que acolheram as crianças do Carmo. A relevância deste estudo argumenta com as questões de políticas públicas de lazer, gerência popular que pode acompanhar e avaliar, ação educativa de museus e arte educação em museus.
SISTEMA DE GARANTIA DE DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
O Estatuto da criança e do adolescente (ECA), aprovado em 1990, é considerado avanço surpreendente no campo democrático ao regulamentar os direitos da criança e do adolescente assegurado no artigo 227 da constituição federal de 1988. Direitos, também, garantidos na Convenção internacional dos direitos da criança em 1989, aprovado pela Assembleia geral das nações unidas.
O ECA propõe nova forma de gestão dos direitos, pois todos tornam-se responsáveis por sua efetivação e cria de fato um sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente (SGDCA), conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais. Direitos complexos que necessitam de atividades articuladas entre o estado, sociedade, comunidade e família. É a co-responsabilidade desses atores que permitirá o funcionamento da doutrina da proteção integral.
O SGDCA começa com a CF/ 88, ganha força com a criação do ECA/90, passa por longo processo de discursão dentro da sociedade civil com os levantamentos do Centro Dom Helder Câmara de estudos e ação social (CENDHEC) e culmina em 2006 com a Resolução/ 113 do Conselho nacional da criança e do adolescente (CONANDA), que determina e explica a sistemática do SGDCA.
O CONANDA busca articular e integrar as assistências públicas governamentais e da sociedade civil, no entanto há necessidade de parceria entre as partes para planejar, executar e monitorar as políticas públicas voltadas ao SGDCA. Tendo sempre em vista o objetivo de aproximar a realidade da criança da lei que garante seu direito, sempre com intuito de modificar a realidade para que haja o cumprimento da lei e não mudar a lei para validar a realidade.
É importante para o SGDCA o melhor interesse da criança, assim, deve está perto da criança (no município onde mora, no bairro, na comunidade indígena, quilombola, ribeirinha ou povos tradicionais), longe de planos abstratos de atendimento, pois quanto mais perto da realidade da criança, mais fácil será o atendimento. Ter consciência de que este é um sistema estratégico, não é operacional, sem órgão gestor determinante de funções. Este atua naturalmente e as ações são sistémicas, pois todos tem consciência das responsabilidades, ou seja, atores responsáveis pelo pleno funcionamento dos eixos de promoção, defesa e controle da efetivação dos direitos.
O eixo da promoção busca efetivar de fato os direitos por meio de políticas públicas referentes à saúde, educação, lazer, moradia e segurança; as medidas protetivas que resguarda as crianças quando tem seus direitos violados; e as medidas socioeducativas que servem para amparar crianças e adolescentes em conflito com a lei. O eixo da promoção se efetiva de duas maneiras: execução de políticas (atendimento) e elaboração das políticas (planejamento). Tem de ficar claro que a promoção é dever de todos e isso está bem definido no artigo 227/CF.
O eixo da defesa tem relação com o acesso à justiça e a atribuição dele é fazer cessar e punir a violação de direitos (ótica estatal). Os principais atores deste eixo são: o Juiz, o ministério público (promotor), defensoria pública, conselho tutelar, centros de defesa e segurança pública.
O eixo de controle da efetivação, responsável pelo acompanhamento, avaliação e monitoramento de políticas públicas voltadas para infância e para adolescência, com lugar de destaque para sociedade (controle popular) por meio dos conselhos de direitos que deliberam políticas públicas para crianças e adolescentes.
Após esse breve histórico sobre os documentos legais que validam o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente, agora serão observados os grupos originários da Amazônia que compõem o ambiente sócio cultural. Este que apresenta uma Amazônia de delimitações e conceitos territoriais. Entraremos agora no universo do Museu, espaço acumulador de artefatos sociais, culturais e principalmente históricos que revelam os aspectos espaço-temporais da cidade de Belém.
MABE: MUSEU DE ARTE DE BELÉM
A consciência patrimonial da humanidade está se deteriorando lenta, mas fortemente. Os interesses intelectuais mundiais sofreram mudanças serias e a relação da humanidade com sua substância histórica é motivo de preocupação e mobilização por parte dos incumbidos de preservar esses patrimônios, os museus.
As sociedades vivem contextos tecnológicos imediatistas que tem pouco diálogo com a preservação física-material do passado. Vive-se no planeta que nega a Amazônia como patrimônio da humanidade, como uma das maravilhas do mundo.
O Brasil existe mundialmente como quintal de países economicamente fortes. Com histórico de dividas externas e politicas públicas duvidosas, o povo sobrevive banhado de mídia futebolística que toma conta do horário nobre (LOBO, 1990). Cego, o brasileiro nega a real situação do país; duvida de sua capacidade e tem pouca fé na educação formal oferecida na escola. A falta de informação e conhecimento dos tesouros existentes em um país de contrastes étnicos; de cultura diversificada; com prédios seculares que dizem sobre seu povo mais do que o povo imagina, está desaparecendo.
Uma cidade com um projeto urbanístico de mais de um século. A Belém de uma época onde há influência europeia em vários campos como literatura, moda, mobiliário, alimentação, música, artes plásticas, cênicas e arquitetura, mas que atualmente vive um estado de deterioração histórica (FIGUEIREDO, 2011). As escolas não estão preparadas para trabalhar a importância dos conteúdos históricos e artísticos que habitam nos prédios e casarões antigos. A cidade que no período da borracha caminhava lado-a-lado com o progresso e disputava culturalmente com Rio de Janeiro e São Paulo, atualmente apenas repete tendências de outras regiões (BASSALO, 2008).
O Museu de Arte de Belém (MABE) é uma instituição comprometida com a preservação histórica de uma “cidade das mangueiras” abalada pelo abandono arquitetônico. A cidade em ruinas que sobrevive nos salões de exposições do museu, cidade que sobrevive no MABE e o MABE que sobrevive em si mesmo.
Pensar uma proposta de atuação para expressar a realidade histórica existente nos salões, em especial o Salão Verde é um desafio tentador, pois, a ação educativa do MABE tem o dever de dialogar com as escolas e visitantes. Na prática o trabalho de mediação voltado aos turistas e estudantes universitários é de determinada forma mais simples que a recepção das crianças e adolescentes frequentadoras das escolas de ensino fundamental e médio. É pensando nos discursos necessários a apresentação dos artefatos artísticos que compõem os Salões e na recepção das escolas principalmente de ensino fundamental que faz-se de grande importância para a instituição uma indissociação dos objetivos educacionais do ensino de História e de Arte do ensino fundamental e do médio, para não apenas a manutenção dos discursos dialógicos, mediador/salão verde como para o diálogo com a necessidade das escolas de nível fundamentais e médio, que perdem-se diante das informações confabuladas nos salões. A condição de atender de forma qualitativa as escolas, também, diversifica o atendimento dos demais grupos de visitantes e prepara os mediadores para receber as “Crianças do Carmo” nos dias de funcionamento do Projeto.
Mais que monumento histórico o Palácio Antônio Lemos é projeto social que venceu as barreiras do tempo para existir de fato na cidade de Belém do Pará e para que Belém do Pará também exista em suas paredes e sacadas. Com uma frase vestida de ambiguidade, pode-se dizer que pisar no Palácio Antônio Lemos é pisar na história de riquezas e frustrações de Belém de outrora e é confabulando com as riquezas artísticas da capital paraense que as escolas tanto visitam o prédio dos intendentes.
A breve revisão histórica remonta desde o projeto de construção do Paço Municipal no fim do século XIX e inicio do século XX até o ano de 1991 quando foi instituído o Museu de Arte de Belém (MABE) como um departamento da Fundação Cultural do Município de Belém (FUMBEL) que tem como administrador maior a Prefeitura Municipal de Belém.
O inicio da construção do Paço Municipal no fim século XIX é o gatilho de uma Belém de tendências europeias; o comportamento e todo o referencial vivido em Belém é francês; é o momento da ArtNoveau e, também, momento de grande empolgação por parte da burguesia. Mas, da fundação da cidade até o século XVIII Belém estava dividida em Cidade (atualmente Cidade Velha) e a Campina. A cidade possuía na época a concentração do poder religioso e militar, representados na figura da igreja jesuíta e no Forte do Presépio. A “cidade” e a “campina” eram separadas por uma área alagada que se juntava ao Igarapé do Piri. Sendo essa uma ocupação institucional e depois de constatado em mapas datados de 1791 foi verificado que ali só existiam o Palácio do governador seus jardins e alguns outros galpões.
Belém foi uma cidade de inúmeras propostas urbanísticas, dentre elas encontra-se a formulada pelo major engenheiro João Geraldo Gronfelt onde na área do Piri seria um canal navegável e a cidade seria tão bela quanto Veneza. No entanto no século XIX o canal foi drenado e aterrado, trabalho esse iniciado pelo Conde dos Arcos, por volta de 1803. O resultado urbano dessa intervenção é a atual Praça D. Pedro II e as diversas ruas que vincularam a cidade à campina.
O favorecimento econômico relacionado à exploração da borracha, momento econômico conhecido como Belle époque equatorial, a partir de 1870, faz com que a Amazônia comece a escrever sua própria história, destacando Belém como maior porto distribuidor para os mercados internacionais o que favorece o poder municipal. A nova situação econômica do município refletia nas atividades políticas e administrativas do município que ansiava por um prédio adequado a atual situação, por esse motivo a partir da metade do século XIX começa a ser construído um palácio que reuniria o poder da província; o local escolhido foi o Largo do Palácio, onde no século XVIII foi construído o Palácio dos Governadores.
No dia 14 de Abril de 1860 o prédio definitivo para o Paço Municipal começa a ser construído e o autor desse grandioso projeto é José Coelho da Gama e Abreu, fato registrado na moeda comemorativa, “delineou e executou” são as palavras gravadas na moeda. Muito longe de ser concluído o prédio foi inaugurado pelo presidente General Barão de Maracaju na data de adesão do Pará a Independência do Brasil, 15 de Agosto de 1883.
Com o passar dos anos o prédio sofreu inúmeras pequenas reformas que o fizeram assumir uma proposta predial eclética que abriga atualmente o museu oriundo da antiga pinacoteca municipal o Museu de Belém (MUBEL), este que é em si artefato histórico, pois está localizado no prédio da intendência municipal, hoje prefeitura de Belém.
Tornar acessível ao público o conteúdo histórico que habita no prédio da Prefeitura ou como é conhecido Palácio Antônio Lemos, onde se encontra o MABE, faz-se importante para o bom resultado do discurso de mediação. A descrição dos salões como Antonieta Santos Feio e Theodoro Braga e seus conteúdos faz-se necessário não apenas para enriquecer o conteúdo do projeto, mas para marcar mais um grande momento do MABE no contexto artístico intelectual da cidade de Belém. A contextualização dos salões no ano de 2012 serviu para registrar as exposições deste ano. O Museu tornou-se com a presença frequente de crianças que não estavam atreladas a trabalhos ou passeios escolares um local acolhedor. As crianças passaram a visitar o Museu em dias independentes se ocorria ou não ações do projeto. Então, passou a ser pensada a relação das “Crianças do Carmo” com o Museu.
O MUSEU E A CRIANÇA
A abordagem integrou os diversos discursos oriundos das crianças e foi considerada toda sua experiência para resolver e criar situações que envolviam a presença delas dentro do espaço do Museu. Este que é lugar de castrar determinados hábitos. Uma criança que está no espaço da rua, quando se depara com o Museu fica sem saber o que fazer, pois este se apresenta como lugar onde nada pode ser tocado, movido ou arredado. Logo, segundo François Laplantine (2005) foi necessário considerar as múltiplas possibilidades das “Crianças do Carmo” no espaço do Museu.
O Projeto considerou todas as condições apresentadas pela criança e sua permanência no espaço do Museu, desde sua forma de expressão, pois está é a disseminadora da história a qual estão fazendo parte; o confronto não com o coletivo de crianças, mas com os indivíduos que ali se apresentavam. O Museu havia aberto suas portas para outra realidade, outra cultura. O estranhamento não aconteceu apenas nas crianças, mas em todos que no museu trabalhavam. O fato é que ocorreu uma troca, pois o museu aprendeu com as crianças; François Laplantine (2005) chama isso de experiência da alteridade. Era tão comum ver as crianças perambulando pela Praça D. Pedro II, pela Praça Felipe Patroni; era tão habitual olhar pela janela e estas estarem lá. Para as crianças era tão comum olhar as enormes janelas do Palacete Azul e os vultos de pessoas andando em todas as direções.
A diferença cultural apresentada pelo museu às crianças foi um choque e o próprio museu, também ficou chocado com o que as crianças falaram do prédio. A frase mais intrigante foi a de uma menina de 12 anos “eu nunca tinha visto esse prédio aqui” e outra completa “eu já, mas tinha medo de chegar perto”. É surpreendente que uma sociedade que apresenta uma riqueza cultural tão diversa não entenda que o espaço por si só não representa cultura, este só carrega este estatuto quando representado no discurso de suas crianças. E isto só ocorrerá segundo François Laplantine (2005, p. 22) “no reconhecimento, conhecimento, juntamente com a compreensão de uma humanidade plural”.
O Projeto iniciou preocupado com as crianças em situação de vulnerabilidade, as acolheu e passou a mostrar a estas um novo lugar e este lugar passou a ensina-las a cuidar e guardar preservando o patrimônio cultural que era não apenas o MABE, mas toda a Cidade Velha. O Projeto mostra a criança o lugar onde ela mora.
A CRIANÇA MEDIADORA COMO PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL
As atividades do Projeto PontArte modificaram a rotina das “Crianças do Carmo”, fez com que muitas passassem a frequentar mais a escola. Quase todas estavam estudantes na escola General Gurjão.
As ações desencadearam uma intensa procura pelo museu, mas que logo sentiam-se desestimuladas pois queriam que todos os dias fossem dias de jogos e pintura. A principal característica do projeto era a manutenção intelectual do espaço do museu, mostrar às crianças a importância do museu e de todo o seu conteúdo. Apresentar as belezas que ali se encontravam. As atividades de pintura sempre estavam relacionadas a alguma obra de um dos salões.
Eram propostas as crianças conversas sobre os salões e estas com o tempo passaram a narrar como “divulgadores” ou “pequenos mediadores” os salões, pois era intenção dos fundamentadores do projeto que as crianças argumentassem entre mundos e realidades diversas. A criança é aquela em constante contato e assim servem de canal de comunicação entre o museu e outras crianças, os novos visitantes.
Os estudantes de estágio que estavam responsáveis pela mediação dos salões construíram um jogo de tabuleiro que continha a rota dos museus da Cidade Velha. O espanto das crianças quando descobriram que a Igreja “grande” (Igreja de Santo Alexandre) era o Museu de Arte Sacra, que o Forte do Castelo é um museu e que a Casa das Onze Janelas não é um restaurante “chick”. As atividades vestiram esses espaços com novos significados, assim o Projeto PontArt passou a mediar reflexões sobre a formação do patrimônio cultural. As crianças passaram a participar e o olhar passou a ler aquele enorme documento histórico que é o lugar onde moram. As crianças deixaram de ser as “crianças do Carmo” e passaram a ser “Pequenos mediadores”, pois passaram a rever suas imposições, atitudes e conceitos de identidade. Portanto, é possível que pequenas ações planejadas e executadas por instituições não-formais complementem a realidade da criança possibilitando, na medida do possível, uma infância saudável.
As crianças subverteram a rotina do museu com sua presença, pois este espaço até então se propunha apenas a visualidade de objetos exibidos através das exposições e estes assumem estatuto de arte, documento artístico ou documento histórico no momento que trás o passado como realidade presente, atualidade. A presença das crianças estabeleceu laços fragmentados na memória, vestígios de realidade; o passado como jogo, brinquedo e brincadeira.
Ensinar as crianças que o museu é um espaço de preservação da memória só foi possível no período da “Primavera de Museus”, pois até as crianças perceberem seus jogos, brinquedos e brincadeiras expostos em um Salão estas não compreendiam a importância e a possibilidade cultural de si. O pequeno Salão expôs as produções artísticas das crianças e estas traziam os familiares e amigos, contando estórias do que aconteceu no dia que o artefato foi produzido. Assim como o museu possui um espaço conhecido como reserva técnica, onde estão guardados seus preciosos artefatos, o “coração” das crianças do Projeto PontArt guarda momentos de infância que fogem ao contexto de negligências a que estão submetidas.
CONSIDERAÇÕES PARA EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL
O Museu de Arte de Belém (MABE) está de portas abertas as visitações e sempre bem disposto a mediar sua essência histórica com as populações que o freqüentarem. Antônio Lemos deixou sua marca na cidade de Belém quando idealizou uma Belém francesa. O prédio do “Velho intendente” é atualmente tesouro histórico, artístico, cultural e, graças ao projeto de intervenção junto às crianças moradoras da Passagem do Carmo, social. Um espaço de educação não-formal ativo perante a proteção integral de crianças e adolescentes do bairro da Cidade Velha.
O contato das crianças com o MABE possibilitou as crianças da passagem do Carmo conhecer outra Cidade Velha. A Cidade Velha de sobrados e palacetes, com motivos de ser. Logo, as paredes do tempo, expostas no salão de arte abriu suas portas para novos leitores e contadores de suas histórias.
Como foi dito na introdução deste artigo o projeto não vai salvar as crianças do seu contexto de negligências, no entanto abriu janelas de infância que servem para serem recordadas e contadas sem medo, raiva ou vergonha. O período de vivência das crianças no espaço do museu é propicio a questões como: qual a possibilidade de políticas públicas de lazer que fortaleçam ações como a do Museu de Arte de Belém (MABE)? Como o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes poderia fortalecer essa prática em instituições não-formais de educação na cidade de Belém?
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BASSALO, Célia Coelho. Art Nouveau em Belém. Brasília (DF): Iphan/ Programa Monumenta, 2008
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: História e Geografia. Brasília: MEC/SEF, 1997
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Arte. Brasília: MEC/ SEF, 1997
FIGUEIREDO, Aldrin Moura de (Curador). Janelas do Passado espelho do presente: Belém do Pará, Arte, Imagem e História. Belém (PA): FUMBEL, 2011
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo (SP): Brasiliense, 2005. (p. 13 a p. 33)
LOBO, Luiz. Televisão: nem babá eletrônica nem bicho-papão (a criança diante da tevê). Rio de janeiro: Lidador, 1990


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

ENSAIO SOBRE UMA AMAZÔNIA DE RECORTES



Este ensaio é obra de reflexões que apresentam como principal referência o artigo “Interculturalidade, fraternidade e comunhão: referências para a sustentabilidade na Amazônia” do Professor Dr. Salomão Mufarrej Hage, graduado em Agronomia e Pedagogia, mestrado em Educação: Supervisão e Currículo. É professor do Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Pará e docente do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Programa de Linguagens e Saberes da Amazônia. É bolsista produtividade do CNPq. Coordena o Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia, Integra a Coordenação do Fórum Paraense de Educação do Campo e Coordena a Escola de Conselhos Pará: Núcleo de Formação Continuada de Conselheiros Tutelares e de Direitos da Amazônia Paraense. Na área de Educação, privilegia as seguintes temáticas: educação do campo, políticas educacionais, educação de jovens e adultos, currículo e formação de professores na Amazônia. Escreveu em 2015, “Transgressão do paradigma da (multi)Seriação como referência para construção da escola pública do campo”, pela revista educação & Sociedade.
O objetivo deste estudo é fomentar sobre as diversas propostas de Amazônia apresentadas pelo Professor Salomão Hage, a sócio-biodiversidade que renasce, aprende-ensina, ensina-aprende os rituais de sobrevivência em uma Amazônia de mimetismos, a Amazônia de recortes.
No artigo o autor apresenta reflexões sobre interculturalidade, fraternidade e comunhão, como referência para pautar a Amazônia e sua sustentabilidade ambiental, produtivo e sócio cultural. Apresenta a Amazônia conforme a delimitação e conceito territorial: biogeográfico (Bioma Amazônia), hidrográfico (Bacia amazônica) e Político-legal (Amazônia legal).
O Bioma Amazônia é a floresta tropical organizada em nove países da América do Sul: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. A Amazônia Internacional.
A Bacia Amazônica é a maior do mundo e compreende a área da bacia do Rio Amazonas e todos os seus afluentes. Possui 7 milhões de km², onde 50% é localizado no Brasil.
A Amazônia Legal é a divisão político-administrativa brasileira. Originada em 1953 pela Superintendência do plano de valorização econômica da Amazônia (SPVEA). Possui 5 milhões de km², ou seja, metade do território brasileiro, onde fazem parte os estados do Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
A Heterogeneidade ambiental é a Amazônia de ecossistemas, formada por áreas florestais e não-florestais, sendo a complexa biodiversidade ou 1/3 da floresta tropical defendida no planeta. Possui rica variedade biológica onde estão estocadas: madeira comercializável, plantas medicinais, aromáticas, alimentícias, corantes, oleaginosas, fibrosas, milhares de espécies vegetais e animais.
A Amazônia é o maior reservatório de água potável do mundo. Onde está localizado 20 mil quilômetros de via fluvial e rica diversidade biológica marinha. A Amazônia Azul.
O setor hídrico da Amazônia é o referencial energético que mantém a exploração e extração mineral, além de projetos de barragens responsáveis por impactos ambientais, econômicos e socioculturais que comprometem o modo de vida das populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e a sustentabilidade do ecossistema.
A heterogeneidade produtiva é o contexto amazônico que abriga atividades econômicas de base familiar, cooperadas e solidárias. Há, também, os processos de produção capitalista, caracterizadas por médios e grandes empreendimentos. Essa realidade é apresentada como desafio aos propósitos de orientar as referências de sociabilidade na Amazônia pela interculturalidade, fraternidade e comunhão. Esta trata da Amazônia que guarda formas contraditórias de atividade econômica, o que desenha a matriz geográfica conflitual que não considera e respeita as características contextuais da região; reforça a extração e exploração madeireira, a pecuária extensiva, o agronegócio, o hidronegócio, a pesca industrial e a exploração minerológica.
É necessário reconhecer a importância das populações amazônicas na preservação da sócio-biodiversidade, para novas dinâmicas de desenvolvimento territorial sustentável.
A heterogeneidade sócio-cultural é formada pela população urbana e as populações tradicionais rurais e camponesas, a riqueza em diversidade étnica e cultural da Amazônia, sendo os processos migratório e imigratório fundamentais para o contexto.
Em toda Amazônia o número de idiomas chega a 250 e na parte que corresponde ao Brasil há 130 línguas de variados tipos de estrutura social, tradições culturais distintas e de diferentes modos de interação com a paisagem natural, pois no Amazonas 21% da área do estado é terra indígena; no Pará, 20% e em Roraima 58%, o que representa na Amazônia uma área maior que Portugal, Espanha, Alemanha ou Belgica.
As áreas demarcadas como indígenas demostram proteger a biodiversidade, pois desenvolvem padrões discretos de ocupação e atividade econômica. Logo, as demarcações indígenas têm alto grau de ajustamento ambiental.
Os povos indígenas conquistaram o direito à demarcação e reconhecimento do território. A materialização da conquista e reconhecimento legal esbarra na arcaica burocracia estatal e nas questões fundiárias.
As populações africanas contribuem para contextualização da Amazônia intercultural, manifesta em atividades ancestrais preservados na memória e oralidade. Povos descendentes de mulheres e homens negros sequestrados do continente, África.
As populações caboclas ribeirinhas são oriundas de povos indígenas, imigrantes estrangeiros, migrantes nordestinos e populações negras. Essas populações têm na pesca atividade cultural; e a imagem que solo, floresta e rio são interdependentes.
O processo de formação cultural da Amazônia brasileira revela a formação das identidades culturais num complexo de saberes, valores e modos de vida que se modificam diante da referência advinda do colonizador. Característica que revela o hibridismo comum à formação cultural da população que enfrenta o imaginário de Amazônia selvagem que precisa ser civilizada.
A Amazônia ocasiona dois modos de agir: o primeiro, paraíso, celeiro do mundo e lutas por preservação travada por ambientalistas que falam de santuário natural. O segundo, ação colonizadora sem interesse nos impactos ecológicos e culturais resultantes da ação predatório.
A afirmação de concepções, práticas e políticas públicas que fortaleçam a interculturalidade, a fraternidade e a comunhão entre os povos, que reconheçam as populações da Amazônia como sujeito de direitos, protagonista na edificação de novos paradigmas de sociabilidade, produção, conhecimento, desenvolvimento e educação na Amazônia. Esta visão permeia relações de poder entre coletivos, populações e movimentos sociais, que contrastam a instauração da fraternidade universal e comunhão, base indispensável de justiça autentica e condição de paz.
Amazônia, cenário para forças participantes deste contexto, como: as nações originárias, grupos de pressão, ONGs associadas, ambientalistas genuínos, setores nacionalistas das forças armadas brasileira, empresas transnacionais, empresas nacionais, empresas vinculadas ao agronegócio, governos internacionais como Estados Unidos, Japão, países europeus e o próprio governo brasileiro.
A Amazônia é encruzilhada histórica e singular que pode decidir o futuro de toda nação. Os movimentos de educação promovem ações de pesquisa, intervenção, formação e militância política, assim afirma novos horizontes de sociabilidade, fraternidade e comunhão, protagonizados pela experiência de sujeitos coletivos em lutas pela terra, águas, floresta, direito ao trabalho, à educação, à saúde pública, à vida digna no campo e na cidade. Esses coletivos dinamizam uma Pedagogia do Movimento, que cultiva e fortalece esperança na construção de outro mundo possível.
As políticas públicas devem se configurar enquanto territórios de reconhecimento da diversidade sociocultural, racial, étnica, de gênero, religiosa e de fortalecimento da esfera pública, sedimentando o princípio da interculturalidade, da fraternidade e da comunhão como componentes integrantes da formação humana e protagonista na Amazônia de projetos emancipatório, soberano e sustentável de sociedade.
O avanço da “Onda conservadora” assume um posicionamento explicito em favor da consolidação de projeto de sociedade orientado pela mercantilização da vida, das políticas públicas, do imaginário social; pela exclusão social, racial, sexual, étnica, etária, territorial; e pela discriminação de classes e grupos que vivem do trabalho e produzem sua existência por meio de relações cooperadas, solidárias e coletivas. Logo, são múltiplas as situações que terminam por interditar a interculturalidade, fraternidade e a comunhão como referência para operar soberania, sustentabilidade, emancipação humana, social e cultural da Amazônia.
A mídia assume papel estratégico a favor da “Onda conservadora”, filtrando e veiculando informações, expondo apenas os fatos que criminalizam movimentos sociais, classes trabalhadoras e assim responsabiliza a jovens pobres, negros e negras pela violência no país.
A luta pela sociedade de direitos humanos e sociais garantidos, efetivados e universalizados é a linha horizontal que tem como meta a sociedade de direitos onde não haja subserviência de qualquer natureza, diferenciações sócio-histórico-político- cultural; a sócio e bio-diversidade amazônica respeitada enquanto patrimônio da humanidade; a Amazônia de transformações sóciodemográficas igualitárias onde os sujeitos individuais e coletivos tornar-se-ão empoderados pela defesa de suas riquezas identitárias.
É extensa a fala sobre Amazônia. Como realizar a liberdade necessária a sobrevivência da floresta brasileira, se não por diálogos indissociáveis à prática educativo-crítica. Essa que afirma a importância da experiência e principalmente, a consciência da experiência necessária ao saber empoderador.
A descrição de Amazônia expresso no trabalho do Professor Salomão Hage aponta características indispensáveis para construção de uma consciência de floresta social, cultural, histórica e política. É necessário compreender o conteúdo Amazônia para despertar o aprendiz que ainda existe naquele que com ela se identifica.
A mudança no contexto sócio-histórico-político-cultural da floresta depende do pensamento reflexivo-crítico; e argumentar sobre fundações de concreto e aço na liberdade das pessoas dispostas a lutar pela mudança no quadro de desrespeito vivenciado atualmente na Amazônia. Portanto, a experienciação da realidade amazônica pode despertar naquele que aprende a maturidade para ensinar ao aprender e isso tornaria possível a floresta amazônica para os habitantes da floresta amazônica.
A luta por liberdade é sacrifício e realização, configurada na nova liberdade construída no contexto da luta.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Pulo: Paz e Terra, 1996. p. 23-28
HAGE, Salomão Muffarej. Interculturalidade, fraternidade e comunhão: referências para sustentabilidade na Amazônia. In: XVII Congresso Eucaristico Nacional: simpósio sobre a Amazônia. Belém (PA): Agos, 2016